El coste de un café Starbucks
Jueves, 10 de Diciembre de 2009 11:29
Debería ser emocionante leer en el artículo publicado en el periódico Público (Portugal) que una empresa transnacional como Starbucks esté preocupada en "mejorar las condiciones de vida de las comunidades de productores de café".
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Sin embargo, cabe destacar que cinco empresas multinacionales: Kraft, Nestlé, Procter & Gamble, Sara Lee y Tchibo - dominan el mercado mundial del café. Las dos empresas más influyentes, Kraft y Nestlé, controlan el 49% de la industría de la torrefacción, una cifra que alcanza el 69% si a éstas dos se suman las tres otras grandes multinacionales. (Daviron y Ponte, 2005).
Mó de Vida – Cooperativa de Comércio Justo (Almada)
Ecos do Sul – Loja do Mundo (Amadora)
O valor agregado do café concentra-se no final da cadeia comercial. Um punhado de importadoras e torrefadoras controla, assim, mais de 78% dos benefícios económicos provenientes do café, enquando no início da cadeia 25 milhões de familia de cafeicultores só recebem uma parte ínfima dos ganhos (Daviron e Ponte, 2005; Fitter e Kaplinsky, 2001).
Do lado do consumo, as grandes corporações são as principais vendedoras de café tostado e do lado da produção são as maiores compradoras de café verde. O comércio do café está subordinado a um sistema em que cinco corporações transnacionais regulam as transacções comerciais entre milhões de produtores e milhões de consumidores de café.
Tomemos como exemplo a Etiópia que sofre da mesma maldição que afecta os países do Sul, produtores de ouro ou petróleo. Muitos dos países produtores de café estão entre os mais pobres. Este país, berço do café, é uma das civilizações mais antigas do mundo. Os grãos da variedade Sidamo, provincia da Etiópia,podem ser comprados até 25 USD a libra na Starbucks. Não obstante, os 1,2 milhões de pequenos produtores etíopes de café recebem menos de 2 USD ao dia.1 O rendimento per capita deste país é de cerca de 83 €: um quinto da média da África Subsahariana (Banco Mundial 2007).
A Starbucks, num passado recente, manteve um diferendo prolongado com o governo da Etiópia a propósito do uso do nome Sidamo nos EUA. Arrogou-se durante muito tempo em ser a detentora exclusiva deste nome. Isto, claro, sempre com objectivos “filantrópicos”.
Finalmente a Etiópia ganhou os direitos de registo da sua marca de café Sidamo nos Estados Unidos. A Etiópia foi forçada a esperar anos para conseguir o certificado, mas o Serviço de Registro de Marcas e Patentes dos EUA confirmou que a Etiópia é a única proprietária da marca registada de café Sidamo.
Podemos ler também no artigo em questão que a Starbucks “só não tem 100 por cento do seu café com este selo porque não há café certificado suficiente que possa fornecer todas as lojas da rede”. Como diria um provérbio cristão “faz o bem e não olhes a quem”. Porquê então depender da certificação? Sendo o interesse realmente nobre, o de melhorar as condições de vida das comunidades, então decida a Starbucks, de forma unilateral, independemente de certificações, passar a pagar substancialmente melhor a todos os produtores a quem compra os grãos de café. Os consumidores já pagam 1,20 euros por um café expresso!
Não acreditamos que a real intenção seja explorar um nicho de mercado destinado a pessoas com um maior poder de compra, ávidos de tranquilizar as suas consciências e “dormirem tranquilos ao beberem um café do comércio justo”.
Tampouco achamos que, para estas empresas, o Comércio Justo não seja um movimento social e sim uma oportunidade de melhorar a sua imagem pública fazendo com que a marca inteira pareça socialmente responsável à custa de um selo (certificação) na minoria dos seus produtos...
Já agora, acometidos por esta onda de boa-vontade “humanista” poderiam ser absolutamente transparentes quanto às suas contas e mostrar aos produtores e publico em geral quais são as margens que praticam, quanto investem em publicidade e marketing à custa do argumento da “ajuda ao produtores” e da própria exploração da imagem destes. Quanto pagam pela certificação? Quanto ganha um auditor que se desloca (quando se desloca) até às comunidade produtoras para impor normas criadas nos gabinetes dos países ricos sem ter em conta as especificidades locais, numa relação de cima para baixo e, também, como é feita a construção do preço de venda ao publico?
Ainda varridos por este “tsunami” de boa-bondade poderia a Starbucks permitir que os produtores participassem igualitariamente nas decisões da corporação e consequentemente nos lucros. Que pudessem os produtores criar condições de participar, também tecnicamente, no processo de transformação dos grãos, sector para onde se destina a fatia maior dos lucros e daí colher benefícios económicos. Que os seus trabalhadores, nas lojas, pudessem igualmente participar nas decisões e lucros desta corporação transnacional e tivessem emprego estável. Todas estas práticas também fazem parte da construção de um Comércio mais Justo.
Sabemos que, felizmente, estas sinceras preocupações com os pobres e a fome no mundo e com a preservação do meio-ambiente não são exclusivas da Starbucks, mas sim extensíveis a muitos grandes grupos transnacionais e nacionais.
É em função destas práticas da dita “responsabilidade social corporativa” que vivemos num planeta cada vez melhor: nos últimos dois anos a fome no mundo passou de 850 milhões de seres humanos para 1.020 milhões, que o aquecimento global atinge níveis inéditos, que os fluxos migratórios aumentam, enfim que a concórdia universal está prestes a ser alcançada.
Do lado de cá da cadeia procura-se que deixemos de ser cidadãos para sermos consumidores bem comportados, acríticos, passivos e caridosos. Quando vemos um pato a flutuar num rio já se diz “parece um pato de banheira” e para elogiarmos uma planta dizemos “parece uma flor de plástico”.
Mó de Vida – Cooperativa de Comércio Justo (Almada)
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